terça-feira, 24 de março de 2015

Resenha - MEMÓRIAS DE UM VENDEDOR DE MULHERES (Giorgio Faletti)

Livro: Memórias de um vendedor de mulheres
Autor: Giorgio Faletti
Editora Intrinseca

Tornei-me fã de Giorgio Faletti quando ainda estava lendo seu primeiro livro publicado, EU MATO e como curiosidade natural quis ler os outros livros do autor publicados no Brasil.
“Memórias de um vendedor de mulheres” é o terceiro livro escrito por ele e o segundo publicado no Brasil. Não me perguntem o porquê de no Brasil não terem seguido a ordem correta de publicação de suas obras. Mas isso nem importa porque seus livros são histórias únicas, infelizmente ou felizmente, sem continuação. Felizmente porque sinto falta de livros únicos com essa febre de trilogias e sagas da atualidade, e infelizmente porque todos os seus personagens vão deixar muitas saudades e é assim também nesse livro quando várias vezes, senão todas às vezes, me vi torcendo pelo cafetão, malandro e cínico personagem principal. Livros com personagens carismáticos, porém desse calibre, acho que afeta nossa moral.

Giorgio, se me permite a intimidade, nos prende aos seus livros logo no prólogo, na primeira página e no caso dessa história, na primeira frase, quando ele já lança a bomba: 
"Eu me chamo Bravo e não tenho pau."  (Pág. 7)
Em uma simples primeira frase ele já faz com que questionemos: “Como assim?”, “Por quê?”, “O que houve” e seguimos a leitura já logo de início com várias perguntas.
O mote principal do livro não é o fato do autor nos apresentar um personagem eunuco, isso é um detalhe - importante porque a curiosidade de qualquer pessoa frente a esse fato é evidente -, mas a história de vida dele é muito mais rica e profunda do que apenas isso. Ninguém sabe seu nome verdadeiro, ninguém conhece sua história de vida, não sabem de onde ele veio e poucos sabem que ele ganha a vida vendendo sexo. E como o título nos mostra, trata-se de Memórias, um Diário da vida de um vendedor de mulheres, e o autor nos apresenta o personagem contando sua vida antes, durante e depois, não seguindo exatamente essa ordem. E assim, o autor nos leva hipnoticamente, suavemente e muitas vezes, ansiosamente pela vida desse homem enigmático.

Muitos personagens desfilam pela história, uns vão e voltam, outros passam rapidamente e outros são decisivos. Nós conhecemos cada um deles, gostamos deles, odiamos, duvidamos e algumas vezes decidi não formar mais uma opinião sobre alguns e deixar o autor me apresentar com medo de alguma outra surpresa. Os personagens são sempre intensos, e o autor nos apresenta cada um deles com suas qualidades e defeitos sempre bem definidos, o problema é que na história uma qualidade pode vir a ser um grande defeito... e seguimos nos surpreendendo.

A escrita do autor é fluida e ele sempre nos deixa na dúvida de algo muito importante que alguém, geralmente o personagem principal, descobriu. Ele passa para a cena seguinte com o personagem resolvendo uma questão sem nos explicar como ele chegou aquela conclusão e o porquê dele estar agindo daquela maneira, mas quem já está acostumado com a escrita do autor se deixa levar porque lá na frente ele vai explicar tudo sem deixar nenhuma aresta solta. E temos vontade de voltar e reler o livro assim que terminamos de ler a última palavra.

A história começa no ano de 1978 na época em que a Itália vivia dias conturbados pelo sequestro do ex-primeiro ministro Aldo Moro. O país vivia um conflito político e ameaçado pela Máfia. Claro que eu fui procurar no Google e essa história é verídica. Nos anos 1980 a rica sociedade milanesa estava entregue aos prazeres da vida, prazeres excessivos envolvendo mulheres, drogas, jogos e bebidas. Nesse ambiente, entre restaurantes de luxo, discotecas, cassinos clandestinos e cabarés onde desponta uma nova geração de comediantes, é aonde esse homem enigmático conhecido por Bravo conduz seus negócios.

Tudo parece andar muito bem para Bravo até o momento que surge em sua vida uma mulher misteriosa, Carla, que volta a despertar em Bravo sensações que ele acreditava que não existiam mais em sua vida. Ele a contrata como uma de suas mulheres e de uma hora pra outra se vê envolvido em perseguições, mistérios, intrigas, que jamais poderia prever em sua vida. E no meio disso tudo, seu passado resolve lhe cobrar presença e ele se vê forçado a encarar fatos e/ou pessoas que deixou para trás quando resolveu seguir sua vida na escuridão das ruas italianas.
Passado e Presente passam a confrontá-lo e a maneira como ele vai encarar esse novo fato em sua vida depende totalmente de como poderá ser o seu Futuro. Não tem como escapar, o único jeito é encarar e tentar resolver problemas deixados para trás. O Passado sempre volta para assombrar caso tudo não fique resolvido dia após dia.

E mais uma vez, Giorgio Faletti me brindou com uma história envolvente e personagens cativantes.
A esperança agora é que os outros títulos do autor já publicados na Itália sejam traduzidos e lançados no Brasil.
'Tudo começou quando entendi que havia mulheres dispostas a vender o próprio corpo para conseguir dinheiro e percebi que havia homens dispostos a gastar o próprio dinheiro para ter aqueles corpos. É necessário avidez, rancor e cinismo para ficar no meio dessa troca. Eu tinha os três."  (Pág. 9)
 "Eu gostaria de explicar, que na verdade, os livros são uma maldição. Os otimistas estão convencidos de que, lendo livros, combatem a própria ignorância, os realistas sabem que têm apenas uma prova da própria ignorância. A medida da falta de conhecimento é, na verdade, o que distingue as pessoas. A idade, o dinheiro e a aparência não têm importância alguma: a verdadeira diferença está na ignorância." (Pág. 93)
 "Os dois corpos nus sobre o leito se entrelaçam e se movem, oferecendo mutuamente todos os tipos de veneno e seus antídotos exatos. Fico sentado, observando, procurando absorver como uma planta o oxigênio da respiração dos dois. Imóvel, feito do mesmo mármore das estátuas, diante daquele gesto sexual realizado por quem não pode ver no lugar de quem não pode mais executá-lo."  (Pág. 114)

Sobre o autor: 

Giorgio Faletti, nascido em Asti, no Piemonte, em 1950, com formação em Direito, tornou-se cantor, compositor e comediante de televisão. EU MATO, seu primeiro livro, foi lançado em 2002, permaneceu mais de um ano nas listas dos mais vendidos na Itália e foi traduzido para 25 idiomas. Todos os seus títulos publicados são Best-sellers. 
O autor faleceu em 04 de julho de 2014.
 
Títulos publicados no Brasil:

- Eu mato (2010)
- Eu sou Deus (2011)
- Memórias de um vendedor de mulheres (2012)