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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Resenha: O aliciador (Donato Carrisi)



LIVRO: O ALICIADOR
AUTOR: DONATO CARRISI
EDITORA RECORD


Esse livro estava na minha lista há muito tempo, muito tempo mesmo e não sei o por quê dele ir ficando para depois se é um enredo que me agrada. A única coisa que tenho para lamentar é o fato de ter empurrado a leitura por todo esse tempo. É uma história super envolvente, nada linear e que muitas vezes dá uma sensação de tontura, porque muda tudo que você pensava muito rapidamente. Tudo que acreditava, tudo que jurava ser a verdade, as personagens que iam sendo incluídas e acreditava, ou não, nos seus depoimentos; tudo muda e te deixa com a sensação de que perdeu alguma coisa e quer voltar alguns parágrafos para tentar entender. E ver que  não perdeu nada, está tudo lá. A questão é que acreditava nos fatos errados, nas pessoas erradas e continua lendo e quando nota o livro acabou. E dá vontade de ler de novo. Eu reli os três últimos capítulos por não querer acreditar no que o autor fez. Isso parece ruim? Não é! É ótimo ser surpreendida se a história no final se costura perfeitamente, e é esse o caso desse livro.


Existe uma personagem "principal", a Mila Vasquez. Ela nos leva a conhecer os outros personagens e o caso em que estão trabalhando e no qual ela foi convocada a ajudar, uma vez que é uma especialista em traçar perfis psicológicos e encontrar crianças desaparecidas. Coloquei o principal entre aspas porque os outros personagens também tem a participação bem desenvolvida pelo autor. 


A narrativa é contada em terceira pessoa, apesar de seguirmos na maior parte do tempo a Milla. Assim como ela, vamos conhecendo todo o grupo com quem ela foi trabalhar, o Esquadrão. Composto pelo criminologista Goran Gavila, considerado o melhor profissional e estudioso no assunto, um civil que é professor universitário e trabalha para o FBI como consultor em casos mais complicados. Klaus Boris, um especialista em interrogatório, agente especial do FBI que já serviu ao exército dos EUA; Sarah Rosa, especialista em informática é uma mulher de temperamento difícil e que bate de frente com Milla, a novata.  Stern, o mais velho do grupo, e de patente mais alta, é um agente de informações. E, por último, Roche, o que dá as ordens, o chefe do Departamento de Ciências Comportamentais da Polícia Federal. Porém, o grupo era guiado por Gavila, por sua experiência e intuições.

"Costumamos chamá-los de monstros porque nós os vemos  como pessoas distantes de nós, porque queremos que sejam "diferentes" -  dizia Goran em seus seminários. - No entanto, são semelhantes em tudo e  por tudo. Mas preferimos reprimir a ideia de que um semelhante seja capaz de tudo isso, em parte para absolver nossa própria natureza."

A história já começa mostrando uma descoberta do grupo. Eles estão investigando um serial killer que sequestrou 6 meninas entre 7 e 13 anos, e a história começa com a descoberta de 6 braços esquerdos encontrados enterrados em um bosque. Até o momento eles sabiam de 5 meninas e foram surpreendidos com a descoberta de 6 braços de 6 meninas diferentes. Quem é a menina número 6?

A narrativa se divide em 3 cenários. Um mostra o envio de relatórios sobre um prisioneiro enviado pelo diretor de um presidio para o Procurador-geral. O autor não dá detalhes, apenas mostra os relatórios enviados.
Em outro aparecem duas pessoas conversando, que parecem ser crianças e que estão presas.
Nesses dois aparecem pequenas partes, sem o autor se aprofundar.
E o outro é a investigação.

Assuntos paralelos são acrescentados e o autor consegue mesmo assim nos manter focados na história principal. Seguimos os investigadores e as conclusões que eles encontram, passo a passo. Quando a investigação está concluída, o autor nos surpreende, e nos vemos novamente em uma montanha-russa com fatos, pessoas e acontecimentos. 

Prepara-se para viver momentos intensos e curta a leitura, e, acima de tudo, não espere uma experiência tranquila.


Esse é o primeiro livro do autor, sua primeira história lançada. Carrisi tem mais um livro lançado no Brasil, e se O Aliciador foi o primeiro e ele apresentou essa historia com um enredo enxuto, uma história forte e bem desenvolvida e fechou tudo muito bem costurado, fico imaginando os próximos livros quando ele já adquiriu mais experiência.

Indico o livro para todos os amantes do gênero policial investigativo e de suspense psicológico. Não leia se você não está preparado para emoções fortes.
Essa história entrou para o meu top 10. A vontade que dá após terminar a leitura e começar de novo imediatamente. Caso se interesse em ler, vai entender porque eu digo isso.

"O serial killer tenta nos contar uma história com o que faz: a  história de seu conflito interior."



DONATO CARRISI é um italiano, nascido em Martina Franca, no ano de 1973. Além de escritor, é roteirista e jornalista. É formado em Direito e especialista em criminologia e comportamentologia. Já publicou 7 livros, sendo 2 lançados no Brasil. (Fonte Wikipédia)

Publicados no Brasil:

2010 - O Aliciador
2013 - Tribunal das almas





terça-feira, 24 de março de 2015

Resenha - MEMÓRIAS DE UM VENDEDOR DE MULHERES (Giorgio Faletti)

Livro: Memórias de um vendedor de mulheres
Autor: Giorgio Faletti
Editora Intrinseca

Tornei-me fã de Giorgio Faletti quando ainda estava lendo seu primeiro livro publicado, EU MATO e como curiosidade natural quis ler os outros livros do autor publicados no Brasil.
“Memórias de um vendedor de mulheres” é o terceiro livro escrito por ele e o segundo publicado no Brasil. Não me perguntem o porquê de no Brasil não terem seguido a ordem correta de publicação de suas obras. Mas isso nem importa porque seus livros são histórias únicas, infelizmente ou felizmente, sem continuação. Felizmente porque sinto falta de livros únicos com essa febre de trilogias e sagas da atualidade, e infelizmente porque todos os seus personagens vão deixar muitas saudades e é assim também nesse livro quando várias vezes, senão todas às vezes, me vi torcendo pelo cafetão, malandro e cínico personagem principal. Livros com personagens carismáticos, porém desse calibre, acho que afeta nossa moral.

Giorgio, se me permite a intimidade, nos prende aos seus livros logo no prólogo, na primeira página e no caso dessa história, na primeira frase, quando ele já lança a bomba: 
"Eu me chamo Bravo e não tenho pau."  (Pág. 7)
Em uma simples primeira frase ele já faz com que questionemos: “Como assim?”, “Por quê?”, “O que houve” e seguimos a leitura já logo de início com várias perguntas.
O mote principal do livro não é o fato do autor nos apresentar um personagem eunuco, isso é um detalhe - importante porque a curiosidade de qualquer pessoa frente a esse fato é evidente -, mas a história de vida dele é muito mais rica e profunda do que apenas isso. Ninguém sabe seu nome verdadeiro, ninguém conhece sua história de vida, não sabem de onde ele veio e poucos sabem que ele ganha a vida vendendo sexo. E como o título nos mostra, trata-se de Memórias, um Diário da vida de um vendedor de mulheres, e o autor nos apresenta o personagem contando sua vida antes, durante e depois, não seguindo exatamente essa ordem. E assim, o autor nos leva hipnoticamente, suavemente e muitas vezes, ansiosamente pela vida desse homem enigmático.

Muitos personagens desfilam pela história, uns vão e voltam, outros passam rapidamente e outros são decisivos. Nós conhecemos cada um deles, gostamos deles, odiamos, duvidamos e algumas vezes decidi não formar mais uma opinião sobre alguns e deixar o autor me apresentar com medo de alguma outra surpresa. Os personagens são sempre intensos, e o autor nos apresenta cada um deles com suas qualidades e defeitos sempre bem definidos, o problema é que na história uma qualidade pode vir a ser um grande defeito... e seguimos nos surpreendendo.

A escrita do autor é fluida e ele sempre nos deixa na dúvida de algo muito importante que alguém, geralmente o personagem principal, descobriu. Ele passa para a cena seguinte com o personagem resolvendo uma questão sem nos explicar como ele chegou aquela conclusão e o porquê dele estar agindo daquela maneira, mas quem já está acostumado com a escrita do autor se deixa levar porque lá na frente ele vai explicar tudo sem deixar nenhuma aresta solta. E temos vontade de voltar e reler o livro assim que terminamos de ler a última palavra.

A história começa no ano de 1978 na época em que a Itália vivia dias conturbados pelo sequestro do ex-primeiro ministro Aldo Moro. O país vivia um conflito político e ameaçado pela Máfia. Claro que eu fui procurar no Google e essa história é verídica. Nos anos 1980 a rica sociedade milanesa estava entregue aos prazeres da vida, prazeres excessivos envolvendo mulheres, drogas, jogos e bebidas. Nesse ambiente, entre restaurantes de luxo, discotecas, cassinos clandestinos e cabarés onde desponta uma nova geração de comediantes, é aonde esse homem enigmático conhecido por Bravo conduz seus negócios.

Tudo parece andar muito bem para Bravo até o momento que surge em sua vida uma mulher misteriosa, Carla, que volta a despertar em Bravo sensações que ele acreditava que não existiam mais em sua vida. Ele a contrata como uma de suas mulheres e de uma hora pra outra se vê envolvido em perseguições, mistérios, intrigas, que jamais poderia prever em sua vida. E no meio disso tudo, seu passado resolve lhe cobrar presença e ele se vê forçado a encarar fatos e/ou pessoas que deixou para trás quando resolveu seguir sua vida na escuridão das ruas italianas.
Passado e Presente passam a confrontá-lo e a maneira como ele vai encarar esse novo fato em sua vida depende totalmente de como poderá ser o seu Futuro. Não tem como escapar, o único jeito é encarar e tentar resolver problemas deixados para trás. O Passado sempre volta para assombrar caso tudo não fique resolvido dia após dia.

E mais uma vez, Giorgio Faletti me brindou com uma história envolvente e personagens cativantes.
A esperança agora é que os outros títulos do autor já publicados na Itália sejam traduzidos e lançados no Brasil.
'Tudo começou quando entendi que havia mulheres dispostas a vender o próprio corpo para conseguir dinheiro e percebi que havia homens dispostos a gastar o próprio dinheiro para ter aqueles corpos. É necessário avidez, rancor e cinismo para ficar no meio dessa troca. Eu tinha os três."  (Pág. 9)
 "Eu gostaria de explicar, que na verdade, os livros são uma maldição. Os otimistas estão convencidos de que, lendo livros, combatem a própria ignorância, os realistas sabem que têm apenas uma prova da própria ignorância. A medida da falta de conhecimento é, na verdade, o que distingue as pessoas. A idade, o dinheiro e a aparência não têm importância alguma: a verdadeira diferença está na ignorância." (Pág. 93)
 "Os dois corpos nus sobre o leito se entrelaçam e se movem, oferecendo mutuamente todos os tipos de veneno e seus antídotos exatos. Fico sentado, observando, procurando absorver como uma planta o oxigênio da respiração dos dois. Imóvel, feito do mesmo mármore das estátuas, diante daquele gesto sexual realizado por quem não pode ver no lugar de quem não pode mais executá-lo."  (Pág. 114)

Sobre o autor: 

Giorgio Faletti, nascido em Asti, no Piemonte, em 1950, com formação em Direito, tornou-se cantor, compositor e comediante de televisão. EU MATO, seu primeiro livro, foi lançado em 2002, permaneceu mais de um ano nas listas dos mais vendidos na Itália e foi traduzido para 25 idiomas. Todos os seus títulos publicados são Best-sellers. 
O autor faleceu em 04 de julho de 2014.
 
Títulos publicados no Brasil:

- Eu mato (2010)
- Eu sou Deus (2011)
- Memórias de um vendedor de mulheres (2012)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Resenha: O Iluminado (Stephen King)


Livro: O iluminado
Autor: Stephen King
Editora: Ponto de leitura


O ILUMINADO é o terceiro livro escrito por Stephen King. Originalmente lançado em 1977 e até hoje republicado. Esse foi o romance que lançou King no rol dos grandes escritores e marca o início de sua carreira de sucesso e o título de mestre do terror.


Eu já havia lido esse livro em mil novecentos e não importa quanto, mas resolvi re(ler) agora e porque não escolher justamente o mês das bruxas, outubro, para re(viver) essa história e assim me preparar para novembro, quando vai ser lançada a sequência: Doutor Sono. Já adquiri na pré-venda e muito em breve voltarei com a resenha dele.

Eu escrevo re(ler) e re(viver) porque podemos ler 10 vezes, ou mais, e sempre será como uma primeira vez. O tempo passa, a vida muda, e lemos e sentimos de acordo com o momento atual. Portanto, não me surpreende esse livro ser relançado e manter o sucesso de sempre. É uma das poucas histórias atemporais e que sempre vai valer a pena reler ou para os jovens e novos-jovens, ler pela primeira vez.

Assim como todas as obras de Stephen King, O Iluminado também é uma história de terror psicológico. Ele é mestre em nos apresentar a personagens humanos, tão humanos que são cheios de defeitos e qualidades, dúvidas, ressentimentos, medos diante dos segredos da vida e em busca de sua autoafirmação e autoconhecimento. Como mostra o autor em uma parte do livro, quando ele escreve:

“Certa vez, durante a fase de bebedeira, Wendy acusara-o de ter um desejo de autodestruição, sem possuir a fibra moral necessária para amadurecer um desejo de morte. Então, ele criara meios pelos quais outras pessoas pudessem destruí-lo, arrancando aos poucos pedaços de si mesmo e de sua família. Seria verdade? Temia, em seu íntimo, que o Overlook pudesse ser, exatamente, o que ele precisava para terminar o espetáculo. Estava se entregando? Por favor, meu Deus, não, não permita que seja assim. Por favor.” (Pág. 246)

Nesse livro temos Jack Torrance, um pai de família que luta para alcançar seus sonhos e, ao mesmo tempo, sustentar sua família composta por Wendy, sua esposa, uma típica esposa americana de classe média, que abriu mão de realizar-se pessoal e profissionalmente para viver para o marido e o filho, Danny. E que apesar de todas as dificuldades e, porque não dizer, maus tratos, é incapaz de deixar o marido porque acha que não teria como se sustentar. Wendy vem de uma família problemática, com uma mãe que em várias passagens do livro retorna a seus pensamentos a deixando angustiada já que mesmo tendo se afastado não consegue se livrar do “fantasma” de tudo que passou com ela. E conhecemos, Danny, um menininho de 6 anos de idade que tem um dom especial, ele “lê” pensamentos e pode ver imagens do passado, presente e futuro. Uma voz o persegue para lhe mostrar fatos que Danny desconhece, e Danny chama essa voz de Tony, que seus pais classificam como um amigo imaginário do filho. Mas para Danny, Tony é real apesar dele não conseguir ver nitidamente o “amigo”. Nos momentos que Danny chama por Tony, ou que Tony resolve aparecer para falar com Danny, o menino é transportado para uma outra dimensão e fica como se estivesse catatônico e, muitas vezes, sofre com convulsões. Mas, como vamos ver, Danny é o iluminado do título, ele tem um poder especial, e esse poder vai fazer com que forças do mal que estavam adormecidas, despertem e o queiram para que fiquem ainda mais fortes e poderosas. Essas ‘forças do mal’ residem no hotel em que a família vai morar por um longo inverno, o hotel que contrata Jack Torrance como zelador, depois dele ter sido demitido do emprego anterior de professor, com uma vida estável e aparentemente tranquila, após agredir cruelmente um aluno na saída da escola.

“Entraram juntos, deixando o vento gritar em tom baixo, pelo resto da noite – um som que acabariam por conhecer bem. Flocos de neve dançavam e giravam pela varanda. O Overlook enfrentava-a, como sempre o fizera por aproximadamente três quartos de século, as janelas escuras no momento forradas de neve, indiferente ao fato de que agora estava isolado do mundo. Ou possivelmente estava satisfeito com o quadro. Dentro de sua concha, os três viviam a rotina do anoitecer, como micróbios presos no intestino de um monstro.” (Pág. 282)

Jack, um alcoólatra que decide largar a bebida depois de agredir fisicamente seu filho – ele quebra o braço do menino, após um ataque de fúria. E desesperado, decide largar seus vícios e procurar um novo emprego e ao mesmo tempo poder se dedicar a escrever seu livro. Sim, Jack Torrance tem o desejo de ser um autor de sucesso. Nos deparamos agora com mais uma rotina nos livros de Stephen King. Geralmente, ele tem um personagem autorreferente. Stephen King, um ex-alcoólatra que lutava para sustentar sua família e com o sonho de ser um autor de sucesso. Notou a semelhança? Acredito que em sua vida deva ter aparecido muitos fantasmas, não como os descritos no livro, claro. E espero que ele não tenha chegado ao extremo de Jack, ao agredir seu próprio filho, para assim poder acordar e tentar seguir em frente em busca do seu sonho.

O livro começa com Jack sendo entrevistado para o emprego de zelador do Hotel Overlook. Um amigo dele conseguiu a entrevista, talvez o único amigo que lhe restou. O gerente não gostou de Jack mas não pôde deixar de aceitar a indicação e o contratou. O hotel não funciona durante o inverno, visto que é impossível alguém subir as montanhas, ou mesmo, descer, quando o inverno se torna mais rigoroso, devido à enorme quantidade de neve. Durante o inverno, o hotel Overlook fica isolado do mundo e o zelador deve manter o hotel “vivo”. Não pode deixar de regular as caldeiras, com o risco delas superaquecerem e explodir o hotel. Manter tudo limpo e arejado para que na primavera ele esteja imediatamente pronto para voltar a funcionar. Um trabalho fácil, sem esforço, e Jack e sua família imaginam que vão vier meses tranquilos. Jack, cuidando do pouco trabalho no hotel. Wendy descansando e cuidando do filho e do marido. E Danny que terá um lugar tranquilo e com muito espaço para brincar e gastar suas energias, e quem sabe se livrar de suas convulsões e ficar curado.

Bom... não é isso que o hotel Overlook reserva para eles. Sua intenção é outra, sua intenção é reunir mais força para que nunca deixe seu passado morrer, e Danny é o que eles precisam para conseguir isso. Como diz a sinopse na contracapa do livro: “Overlook é uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. O hotel é uma sentença de morte e quer Danny, pois precisa de seus poderes para chegar ao fim.”

Não espere passagens com fantasminhas sem cabeça e/ou desmembrados. Sim, alguns deles aparecem, mas, como sempre, não é esse tipo de terror trash que Stephen King nos propõe. O terror de King vai mexer com o nosso inconsciente, é um terror mais denso, profundo, um terror mental. Ele faz com que nos envolvamos na vida e temores nos seus personagens, que pensemos como eles, torcemos e lutemos com eles. Nossa mente estará junto com Jack, Wendy, Danny e qualquer outro personagem que aparece no livro. Não é à toa que Stephen King é considerado um mestre. Ele guia-nos como ninguém.

Quer viver uma grande aventura? Testar seus limites? Então não deixe de “visitar” o hotel Overlook junto com Danny e sua família. Aguardo você e suas impressões.

“Era um som vivo, mas não eram vozes, nem respiração. Um homem com uma tendência filosófica chamaria de som de almas. A avó de Dick Hallorann, que crescera nas estradas do Sul, anos antes da passagem do século, chamaria de assombração. Um médium teria um nome comprido para isso: eco mediúnico, psicognosia, telepatia. Mas para Danny isto era apenas o dom do hotel, o velho monstro, estalando e cada vez fechando mais o cerco em volta deles: corredores encolhendo em tempo e distância, sombras famintas, hóspedes inquietos que não descansavam em paz.” (Pág. 431)


Um pouco sobre o autor:



Stephen King era um leitor fanático dos quadrinhos EC's horror comics incluindo Tales from the crypt, que estimulou seu amor pelo terror. Na escola, ele escrevia histórias baseadas nos filmes que assistia e as copiava com a ajuda de seu irmão David. King as vendia aos amigos, mas seus professores desaprovaram e o forçaram a parar. 


Seus livros publicados no Brasil são:


1974 - Carrie, a Estranha (Carrie)
1975 - Salem (Salem's Lot)
1977 - O Iluminado (The Shining)
1978 - A Dança da Morte (The Stand)
1979 - A Zona Morta (The Dead Zone)
1980 - A Incendiária (Firestarter)
1981 - Cão Raivoso (Cujo)
1983 - Christine (Christine)
1983 - Cemitério Maldito (Pet Sematary)
1983 - A Hora do Lobisomem (Cycle of the Werewolf)
1984 - A Maldição (Thinner)
1984 - O Talismã (The Talisman, escrito com Peter Straub)
1986 - A Coisa (It)
1987 - Os Olhos do Dragão (The Eyes of the Dragon)
1987 - Angústia (Misery)
1987 - Os Estranhos (The Tommyknockers)
1989 - A Metade Negra (The Dark Half)
1990 - A Dança da Morte (expandida) (The Stand: The Complete & Uncut Edition)
1991 - Trocas Macabras (Needful Things)
1992 - Jogo Perigoso (Gerald's Game)
1992 - Eclipse Total (Dolores Claiborne)
1994 - Insônia (Insomnia)
1995 - Rose Madder (Rose Madder)
1996 - À Espera de um Milagre (The Green Mile)
1996 - Desespero (Desperation)
1998 - Saco de Ossos (Bag of bones)
1999 - A Tempestade do Século (Storm of the Century)
1999 - The Girl Who Loved Tom Gordon (não publicado no Brasil))
2000 - Riding the Bullet (não publicado no Brasil)
2001 - O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher)
2001 - A Casa Negra (Black House, escrito com Peter Straub)
2002 - Buick 8 (From a Buick 8)
2005 - O Rapaz do Colorado (The Colorado Kid)
2006 - Celular (Cell)
2006 - LOVE: A História de Lisey (Lisey’s Story)
2008 - Duma Key (Duma Key)
2009 - Sob a Redoma (Under The Dome)
2011 - Novembro de 63 (11/22/63 - A Novel)
2013 - Doutor Sono

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Resenha - EU SOU DEUS (Giorgio Faletti)

Livro: Eu sou Deus
Autor: Giorgio Faletti
Editora Intrinseca

Nesse segundo livro de Giorgio Faletti, cujo autor virei fã depois de ler seu primeiro livro (EU MATO) , nos vemos fazendo uma viagem entre passado e presente para que ele, o autor, possa nos apresentar todos os seus personagens e os introduza na história. Como no primeiro livro, Faletti usa muitos personagens e com muita calma e muita vontade vamos reconhecendo-os e os ligando ao seu enredo. Para quem ainda não leu suas histórias e/ou não conhece sua linguagem, encontra dificuldade com tanta minúcia na apresentação de seus heróis (?!). Nesse livro em particular, ele faz isso ainda com mais vontade e confesso que, mesmo já estando um pouco familiarizada com o autor, senti dificuldade em alguns momentos em reconhecer quem era o personagem principal. A história passa do presente para o passado várias vezes e em alguns momentos parei para reler alguma coisa ou fazer contas para ter uma ideia do tempo transcorrido entre um fato e outro. Mas toda essa ansiedade em querer saber quem é quem na história e “dar nomes” aos personagens é minha e eu lido bem com ela. Se você também lida muito bem com sua ansiedade em querer descobrir quem é o assassino e o seu motivo, então se joga nessa história e cuidado mais uma vez para não se apaixonar por algum personagem. Sim, Giorgio Faletti sempre inclui um personagem carismático e imperfeito que faz com que gostemos muito dele.
Nessa história, temos nessa linha, Russel Wade, um jornalista decadente, autodestrutivo e que vive assombrado por fantasmas do passado. Ele, junto com a detetive Vivien Light, vão em busca da solução para os enigmas que se postam diante deles.
Duas pessoas improváveis que se unem, sem querer, depois de um primeiro encontro onde cada um está de um lado da lei.
"Vivien se viu cercada pelo ar suave daquela tarde de primavera. Desceu os poucos degraus e teve, à direita, uma breve visão de Russel Wade e de seu advogado desaparecendo no interior de uma limusine com motorista. O carro se moveu, desfilando diante dela. O hóspede daquela noite no Plaza havia tirado os óculos, e seus olhos se cruzaram através da janela aberta. Vivien penetrou por um instante num par de olhos escuros e ficou espantada com a tremenda tristeza que encontrou dentro deles. Depois o carro seguiu em frente e aquele rosto desapareceu no trânsito, por trás do vidro elétrico. Por um instante, dois planetas que habitavam os confins da galáxia se tocaram, mas logo a distância foi restabelecida pela simples barreira de um vidro escuro." (Pág. 76)
Aos poucos, o autor, vai desvendando os personagens e seus mistérios e assim vai nos envolvendo por sua narrativa fazendo com que não tenhamos vontade de parar de ler até que tudo se encaixe perfeitamente, o que acontece. O autor vai costurando os fatos maravilhosamente bem e fecha muito bem a história.

Nesse livro o serial killer que mantém Nova York sob ameaça, não é um serial killer comum. Aparentemente não existe um modus operandi para suas ações levando a crer que talvez tenha mais de um assassino a solta. E isso pode ser verdade.

Tudo começa após a descoberta de um corpo que foi encontrado em uma obra. Um corpo emparedado há milhares de anos e com uma única foto que pode levar a detetive ao assassino. Uma cidade como Nova York que vive crescendo, com diversas construções todos os dias é o cenário para uma série de crimes de terror.  Os protagonistas dessa história tem que correr contra o tempo para desvendar os mistérios, ligar os fatos e pessoas e assim evitar que um simples botão acaba com a vida de milhares de inocentes.

Em meio a todo o caos, três pessoas são ligadas pelo assassino, cada uma a sua maneira. A detetive Vivien Light, por seu trabalho. Russel Wade por ter uma prova crucial em suas mãos e o padre Michael McKean, que acaba envolvido na história quando o assassino resolve se confessar e assim se livrar de seus pecados. O padre vive a partir desse momento um conflito entre seus votos como padre e seu dever como cidadão. Vidas dependem da decisão que o padre tomará, sendo sua decisão de guardar para si, e Deus, o que sabe ou até mesmo de contar para as autoridades tudo o que lhe foi revelado na privacidade de um confessionário.

Giorgio Faletti mais uma vez merece nota máxima por nos manter envolvidos com sua história e por nos fazer pensar e (re)avaliar conceitos.
"Li em algum lugar que, se o Sol se apagasse bruscamente, sua luz ainda chegaria à Terra por mais oito minutos antes de tudo mergulhar na escuridão e no frio do adeus." (Pág. 11)
"Depois, os gritos, a poeira dos carros que se abalroam, e as sirenes que avisam que para muitas pessoas atrás de mim os oito minutos chegaram ao fim.
Esse é o meu poder.

Esse é o meu dever.
Esse é o meu querer.
EU SOU DEUS."  (Pág. 12)
"Há dois lobos em cada um de nós. Um é o mau e vive de ódio, ciúme, inveja, ressentimento, falso orgulho, mentiras, egoísmo.
- E o outro?

- O outro é o lobo bom. Vive de paz, amor, esperança, generosidade, compaixão, humildade e fé.
- E qual dos dois vence?
- Aquele que você alimentar melhor."  (Pág. 73)
"Enquanto caminhava, percebeu que seu problema era o mesmo de todas as pessoas que se moviam naquela rua, naquela cidade e naquele mundo, com a presunção de que viviam e com a certeza de que iriam morrer. Infelizmente, não havia nenhum mundo alternativo, e nenhum deles, por mais que se enganasse com a ilusão de poder fazer o tempo durar mais um pouco, tinha na verdade tempos suficiente." (Pág. 85)

Sobre o autor: 

Giorgio Faletti, nascido em Asti, no Piemonte, em 1950, com formação em Direito, tornou-se cantor, compositor e comediante de televisão. EU MATO, seu primeiro livro, foi lançado em 2002, permaneceu mais de um ano nas listas dos mais vendidos na Itália e foi traduzido para 25 idiomas. Todos os seus títulos publicados são Best-sellers.  O autor faleceu em abril de 2014.

Títulos publicados no Brasil:

- Eu mato (2010)
- Eu sou Deus (2011)
- Memórias de um vendedor de mulheres (2012)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Resenha - EU MATO (Giorgio Faletti)

Livro: Eu mato
Autor: Giorgio Faletti
Editora Intrínseca

Definitivamente eu amo histórias policiais. Coloca um enredo de mistério, um assassinato ou mais (amo histórias de Serial Killers), um detetive/agente interessante, bonitão, gostosão e mesmo que não aparente ser assim tão “ão” mas que apenas pelo fato de estar lá desvendando mistérios, mostrando uma mente brilhante para ligar fatos e intuitivamente decifrar enigmas....pronto, a história já me ganhou. Então quando entro em sites de compra de livros já clico na aba “Policial” e vou ser feliz procurando os livros que possam me interessar. Em uma dessas “viagens” eu li o título ‘EU MATO’ e já pensei: “- Isso é Serial!” e li um trecho do livro:
- Até nisso nós somos iguais. A única coisa que nos diferencia é que, quando acaba de falar com elas, você tem a possibilidade de se sentir cansado. Pode ir para casa e desligar a mente e todas as suas doenças. Eu não. Eu não consigo dormir de noite, porque meu sofrimento nunca acaba.

- E nessas noites, o que faz para se livrar do seu sofrimento?

- Eu mato...
Pronto! Eu quero esse livro!!!! Comprei o livro, li logo que chegou e não me arrependi em nenhum momento da leitura.
O livro é eletrizante, fascinante e a história prende do início ao fim. Você pode pensar que quer parar de ler, precisa dormir, precisa comer, precisa trabalhar, precisa qualquer coisa, mas o livro está lá e você precisa mais ainda é terminar de lê-lo.
Esse é um livro de 531 páginas e que vale cada uma delas.
É a primeira história de Giorgio Faletti e a forma dele escrever no início pode ser de se estranhar para quem ainda não está acostumado porque ele esmiúça os personagens, nos conta sua história, faz com que entremos em sua vida, o conheçamos e então ele o insere na história do livro propriamente dito. No começo achei que ele estava exagerando em tantos detalhes mas logo me acostumei e terminando a leitura entendi suas razões para isso.

A história se passa no Principado de Mônaco, um lugar onde a policia é considerada a melhor do mundo. Um detetive e um agente do FBI, que cai de paraquedas na investigação, se vêem as voltas com um dos casos mais angustiantes de sua carreira.
O agente do FBI, Frank Ottobre, de luto após a morte de sua esposa resolve visitar seu velho amigo delegado da Sûreté Publique do Principado de Mônaco, Nicolas Hulot. Encontram-se por acaso próximo a cena de um crime e conversa vai, conversa vem, o amigo pergunta se ele não pretende voltar a ativa, Frank nega mas no fundo ele sente falta dessa adrenalina e diante do pedido quase desesperado do amigo ele o ajuda nas investigações e de acordo com o desenrolar da história fica cada vez mais envolvido, pessoal e profissionalmente, até não poder mais sair e procurar desesperadamente solucionar esse caso.
O assassino em questão, que se autodenomina “Ninguém” é um dos mais sanguinários que a policia principalmente a de Mônaco já precisou enfrentar. Ele escolhe suas vítimas aparentemente sem nenhum tipo de ligação entre si, as mata e não as poupa nem depois de mortas, retirando seu rosto. “Ninguém” passa a entrar em contato com uma rádio de Mônaco para anunciar seus próximos alvos, mas não faz isso diretamente, ele envia enigmas relacionados a músicas. Os peritos devem descobrir a música e o quê naquela música pode levá-los a desvendar a próxima vítima e o lugar onde o crime ocorrerá. Na demora dos peritos conseguirem desvendar, mais uma vítima é morta e seu rosto é retirado e, na cena do crime o assassino escreve com o sangue da vítima a frase “EU MATO”.
Os investigadores procuram entender o motivo por trás dos assassinatos e porque o assassino retira a pele do rosto de suas vítimas.
Várias pessoas vão sendo envolvidas no caso. Além do delegado e o agente do FBI, temos o carismático locutor da rádio, Jean-Loup Verdier, cujo programa apresentado é o escolhido pelo assassino para com seus telefonemas misteriosos enviar os enigmas; um general norte-americano pai de uma das primeiras vítimas do ataque do assassino que foi morta junto com seu namorado um famoso piloto de Fórmula 1; um funcionário da rádio deprimido por dever muito dinheiro a agiotas e por ter perdido uma grande chance em sua profissão; um rapaz especial que conhece tudo de música e tem como grande ídolo Jean-Loup. Tragédias pessoas afetam todos os envolvidos na investigação, pessoas que não estão relacionadas diretamente aos crimes mas o autor vai nos apresentando de acordo com a importância ao menos em uma parte da história. E a medida que os crimes vão acontecendo o caso chama atenção da mídia uma vez que muitas das vítimas são pessoas públicas, além do piloto de Fórmula 1, um gênio da informática e um bailarino.
Diferente de outras histórias o autor nos apresenta o assassino bem antes do final do livro, isso mesmo não precisamos saber quem está por trás dos assassinatos somente na última página do livro, mas não pense que o fato de já saber quem é o assassino cruel faz com que a história fique mais parada e enfadonha, pelo contrário. O autor consegue manter todo o ritmo de suspense e adrenalina mesmo depois da grande revelação e nesse momento começa a caçada para prendê-lo.
Na história de Faletti não temos heróis, temos personagens reais com seus problemas e dilemas, tentando sobreviver no mundo, isso faz com que nos identifiquemos com cada um deles, procurando conhecê-los e entender toda sua dinâmica. Histórias paralelas são bem exploradas pelo autor, mostrando que a vida das pessoas não se resume a apenas um fator, porém vários.

Recomendo totalmente a leitura para quem é fã de thrillers policiais e para quem não é também porque acredito ser impossível não se envolver com os personagens de Faletti e com a investigação e caça ao assassino.

"Todos estão fechados numa prisão. Eu construí a minha sozinho, mas nem por isso é mais fácil sair." (Página 27)
"Quando a luz abandona seus olhos, não dá para saber se está mirando o inferno ou o paraíso." (Página 122)

Sobre o autor: 

Giorgio Faletti, nascido em Asti, no Piemonte, em 1950, com formação em Direito, tornou-se cantor, compositor e comediante de televisão. EU MATO, seu primeiro livro, foi lançado em 2002, permaneceu mais de um ano nas listas dos mais vendidos na Itália e foi traduzido para 25 idiomas. Todos os seus títulos publicados são Best-sellers. O autor faleceu em 04 de julho de 2014.

Títulos publicados no Brasil:
  • Eu mato (2010)
  • Eu sou Deus (2011)
  • Memórias de um vendedor de mulheres (2012)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Resenha - Paperboy (Pete Dexter)

Livro: Paperboy - Não existem homens íntegros
Autor: Pete Dexter
Editora: Novo Conceito

Quando eu li algumas partes da sinopse e opiniões sobre o livro e vi que a história era baseada em jornalismo investigativo já me chamou atenção por ser um dos gêneros literários que eu adoro. Quando soube que a história ia para os cinemas fiquei ainda mais curiosa para ler, coloquei o livro na minha lista de desejos. Na Bienal do Livro do Rio de Janeiro nesse ano o livro estava em promoção, então pensei: “Mais um motivo para que eu leia o livro, deve ser um aviso.” Adquiri o livro e quis logo começar a ler antes do filme ser lançado.
A história é contada por Jack James, o irmão mais novo do jornalista, Ward James, que vive e trabalha em Miami. Jack vive com o pai no condado de Moat, zona rural, interior dos Estados Unidos, onde o xerife Thurmond Call durante o cumprimento do seu dever matou 17 pessoas. Dezesseis delas eram negras. Na véspera de completar 67 anos, depois de 34 anos em sua profissão ele mata a 17ª pessoa. Ele algema sua vítima e depois o chuta até a morte. Esse homem, Jerome Van Vetter, era branco.
Nas primeiras horas da manhã seguinte Thurmond Call foi encontrado morto na estrada a poucos metros de sua viatura. Ele tinha um corte que ia da barriga até a virilha e foi deixado para morrer.
O primo de Jerome, Hillary Van Vetter, foi condenado por esfaquear o xerife num ato de vingança. Ninguém ficou surpreso com isso já que todos sabiam que a família Van Vetter cuidava dos seus, e Hillary Van Vetter era o membro mais feroz e imprevisível de todo a família.
A polícia foi à cabana de Hillary, sete dias depois do assassinato do xerife e encontrou uma faca ensanguentada e também uma camisa nas mesmas condições. E Hillary estava bêbado e feliz em uma banheira quando os policias chegaram. Assim, Hillary Van Vetter foi preso pelo assassinato. Em cinco meses foi julgado e condenado a morte mesmo tendo sido defendido pelo advogado mais caro do condado de Moat.
Os jornalistas, Ward James e Yardley Acheman saem de Miami e vão ao condado para investigar e publicar a matéria no jornal Miami Times. Eles são convencidos pela enigmática Charlotte Bless de se aprofundarem no caso dizendo que algo muito estranho tinha acontecido para condenarem Hillay Van Vetter. Ela tem certeza que ele é inocente. Essa mulher tinha a estranha mania de se corresponder com condenados a morte sem nem ao menos conhecê-los pessoalmente. Depois de ver uma foto de Hillary Van Vetter em um jornal no momento de sua prisão, algemado e sendo conduzido ao tribunal do condado de Moat ficou interessada e alguns dias depois escreveu uma carta e enviou para ele. Todas as correspondências que enviava ela fazia uma cópia e guardava em caixas com as iniciais do destinatário.
Na última parte da sinopse da Editora está escrito:

“Paperboy é um romance gótico sobre a vida aparentemente sossegada das cidades do interior. Um thriller tenso até a última linha, que fala de corrupção e violência, mas que, ao mesmo tempo, promove uma lição de ética.”

Tomei fôlego e comecei a ler o livro, terminei a leitura com fôlego de sobra. Não fiquei tensa, não entendi o que é ‘um romance gótico’ e não descobri qual é a lição de ética que o livro se propôs.
A sinopse nos engana, até mesmo falando que Jack James acaba fazendo uma investigação por conta própria e eu sinceramente, não vi isso no livro. Jack James está sempre com o irmão nas investigações porque Ward o contrata como motorista, e assim acaba conhecendo e se metendo nas histórias, mas não se aprofunda em nada sozinho. Na verdade esse personagem só nos conta a história de acordo com sua visão pessoal sobre todos os fatos, o que nos deixa na dúvida sobre vários pontos da narrativa porque como Jack não estava presente, nós também não vamos estar e vamos permanecer com as mesmas dúvidas que ele, e as curiosidades também. Ele basicamente acompanha seu irmão na investigação e não faz mais nada além disso.
A leitura é lenta, tranquila, sem grandes reviravoltas e poucas surpresas. É como uma história que nos é contada no fim de tarde em uma cidade do interior. Não sabemos se a história é verdadeira, se estão aumentando pra ficar interessante, porém vamos ouvindo e até gostando da prosa. No fim sorrimos e pensamos: “É, foi uma história legal”, vamos dormir e no dia seguinte esquecemos dela.
Não é um livro muito ruim, não achei, apesar de ser lento, cansativo. Mas é uma história para ler sem pretensões. Ao terminar de ler um livro realmente tenso, vale a pena pegar e ler “Paperboy”. Ele não vai ficar entre os melhores livros, mas também não fica entre os piores já lido.
O autor escreveu a história com começo, meio e fim. A história é bem costurada. E o fato duvidoso que ele levanta no final normalmente é como em toda matéria jornalística.
Os personagens são um tanto loucos, o autor não nos “apresenta” a todos completamente, mas não podemos esquecer que a história é contada em primeira pessoa, então os personagens são descritos de acordo com que vão surgindo e sempre com a visão de Jack James. Mas digo que os personagens são um pouco loucos por causa dos diálogos que muitas vezes parece que não vai nos levar a lugar nenhum e que nem eles sabem por que estão dizendo tal coisa ou para quem, parecendo muitas vezes que estão pensando em voz alta. Ou então o personagem que narra pode ser o grande desequilibrado da história.

Apesar de a sinopse ser melhor que a história, da narrativa ser lenta, de não poder considerar o livro como um dos melhores já lidos, eu indico a leitura. Mas como eu disse, leiam sem pretensões, em um momento que queiram “descansar” de uma outra leitura mais tensa.

“Eu estava tonto com o cheiro do perfume dela, e, embora não continuasse a me comparar sexualmente com aquele animal de maneira intencional, percebi que, em algum momento da história, nós, assim como os cães, ficávamos sexualmente excitados pelo olfato; além disso, há certos odores que, durante toda a vida, parece nos chamar à ação quando estamos sob sua influência.” (Pág. 48)

“’Desculpe’ é a coisa mais inútil do mundo – disse ele. – Um homem me pede desculpas, e isso só serve para piorar a situação.” (Pág. 107)

“– Você ainda não viu o que acontece quando se tem razão, Jack – disse ele – Quando compreende as coisas exatamente do jeito que elas são...
- O que acontece então? – perguntei.
Ele sorriu parra mim, como queixo engordurado brilhando.
- Faz com que seja possível suportar a situação – disse ele. E, por um momento, tive a impressão de que sua voz estava vindo da enfermaria.
- É impossível saber quem uma pessoa é, exatamente – eu disse, e aquilo pairou sobre a mesa, entre nós, por um longo tempo.” (Pág. 248)

“Terminei outra cerveja. Pareceu-me, naquele momento – sempre tive essa impressão -, que há pessoas que você reconhece intuitivamente como inimigos. E, na maior parte do tempo, como no caso de Yardley Acheman, eles o reconhecem. Além disso, mesmo que nada seja dito ou feito, a animosidade está lá, desde a primeira vez que vocês entram na mesma sala.
- Acho que somos inimigos naturais – eu disse.” (Pág. 277)

Sobre o autor: 

Pete Dexter é romancista vencedor do National Book Award, é de Michigan, nos Estados Unidos. Foi colunista do Philadelphia Daily News e do The Sacramento Bee, e articulista em revistas como Sports Ilustrated e Playboy. Vive em uma ilha na costa de Washington. Paperboy é seu único livro publicado no Brasil.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Resenha - O pesadelo (Lars Kepler)

Título: O pesadelo
Autor: Lars Kepler
Editora: Intrínseca

Sinopse da Editora:

Após conquistar os leitores em O Hipnotista, o detetive Joona Linna está de volta em O Pesadelo. Best-seller internacional, o thriller policial de Lars Kepler foi aclamado por público e crítica em dezenas de países. Agora, o detetive mais carismático, intuitivo e obstinado da Suécia se vê diante de um novo quebra-cabeça.

Tudo começa quando a polícia descobre o corpo de uma jovem dentro de uma lancha à deriva no arquipélago de Estocolmo. Seus pulmões estão cheios d’água e os médicos legistas afirmam que ela morreu afogada. No entanto, o barco está em perfeito estado e o corpo e as roupas da mulher estão secos. No dia seguinte, um alto funcionário do governo sueco aparece enforcado em seu apartamento. Seu corpo pende no ar, amarrado a um lustre, enquanto uma enigmática música de violino ressoa por todo o ambiente. Tudo indica que foi suicídio, mas o salão tem pé-direito alto e não há nenhum móvel em volta no qual ele possa ter subido.

Encarregado de desvendar os dois mistérios, o detetive Joona Linna tenta estabelecer um vínculo entre acontecimentos que, à primeira vista, não têm relação. Numa sequência vertiginosa de eventos que desafiam a lógica, o mais assustador em O Pesadelo não são os crimes horripilantes, mas a psicologia obscura de seus personagens, que mostram como somos todos cegos à nossas próprias motivações.

Resenha:

O gênero policial é um dos que eu mais amo ler e quando li do que se tratava a história desse livro logo me interessei e tive certeza que iria gostar. E não me decepcionei!
O Pesadelo é o livro que Lars Kepler escreveu depois de O Hipnotista e os personagens se repetem. O detetive Joona Linna está de volta assim como seus colegas do Departamento de Polícia. Não é uma série, são histórias independentes, mas caso a pessoa se interesse pela leitura eu aconselho seguir a ordem para ir se familiarizando com os personagens que se repetem.

Essa história começa quando é encontrado o corpo de uma jovem mulher em um barco a deriva. Os legistas afirmam que ela morreu afogada, mas ela foi encontrada deitada na cama, dentro de uma das cabines do barco. Seus pulmões estão cheios de água mas suas roupas e seu corpo estão secos, sem vestígios da água do mar.
Horas depois a polícia encontra o corpo de um alto funcionário do governo sueco. Ele está enforcado no meio de sua sala cujo teto é muito alto e próximo ao corpo não tem nenhum móvel onde ele possa ter subido para cometer o suicídio.
O detetive Joona Linna é contatado e com sua intuição e obstinação acima da média encontra evidências que levam a polícia a correr atrás de um grande assassino, que certamente pode estar atrás de outras pessoas, ainda mais quando Joona Linna conclui que a mulher encontrada morta na verdade estava no lugar errado e na hora errada, o assassino na verdade estava atrás de sua irmã que está desaparecida, assim como seu namorado, em uma das ilhas próximas de onde foi encontrado o barco.
Joona fica responsável por ambos os casos sem nem imaginar que a partir daí sua vida vai virar uma montanha russa e ele precisa correr contra o tempo para solucionar e prender a pessoa por trás dessas mortes.

Nessa história, Joona tem a ajuda de Saga Bauer, agente da SÄPO. Saga, como todos dizem, parece um Elfo, tem uma beleza extraordinária e devido a isso, e ao fato de ser uma mulher, tem grandes problemas em conseguir ficar a frente de alguma investigação. Seus superiores, mesmo conhecendo sua competência a protegem mais do que ela gostaria e do que se acha capaz.
A princípio, e essa é uma parte óbvia da história, os dois não se entendem. Joona não quer ajuda de ninguém, muito menos da SÄPO e Saga Bauer se irrita constantemente com a auto-suficiência demonstrada por Joona e pelo seu jeito mandão. Mas logo um reconhece a competência do outro e conseguem fazer um excelente trabalho juntos.

Joona Linna vale dizer, é um personagem extremamente carismático e mais uma vez faz com que me apaixone por ele. Nessa história os autores falam um pouco mais sobre sua vida e dessa vez ele realmente é o personagem principal.

A leitura é tão envolvente e os capítulos tão curtinhos que não dá vontade de parar de ler e fui lendo só mais um capítulo e outro mais e quando me dei conta já estava terminando o livro e antes mesmo de acabar já estava sentindo saudades.

A maneira dos autores conduzirem a história é tão contagiante e empolgante que não dá para parar de ler, e de acordo com o avanço da história mais curiosos ficamos com o seu desfecho. Eles descrevem as cenas e colocam pistas que nos fazem pensar e seguir junto com os detetives na solução do caso. A história é muito bem desenvolvida e costurada no final sem deixar dúvidas.

Um fato interessante do livro é que no final os autores escrevem pequenos capítulos nos contando como ficou cada um dos personagens marcantes da história, até mesmo nisso tudo ficou bem amarrado. Somente um fato ficou em suspenso e por isso acredito que vamos ter outra(s) história(s) com esse detetive. No final, no capítulo dedicado a ele, uma senhora o segue e lhe entrega cartas de Tarô e lhe fala uma frase enigmática. Várias coisas me passaram pela cabeça, mas não tenho certeza do que possa significar, a única certeza que eu tenho é que não vejo a hora de ser lançado no Brasil uma nova história de Joona Linna.

OBS: Em Portugal já foi traduzido um novo livro dos autores e acredito que em breve vá chegar ao Brasil. Eu já estou morrendo de vontade de ler com o português de Portugal mesmo porque a curiosidade e a saudade de Joona é muito grande!

Quotes:

“O medo não é constante. De vez em quando há espaço para o pensamento racional. É como eliminar um barulho irritante para descobrir um lugar silencioso em sua cabeça, o que lhe dá uma noção clara de sua situação. Então o barulho recomeça e seus pensamento correm em círculos até que o único ímpeto é correr." (Pág. 61)

“Ver o corpo morto de um ente querido é impiedoso – o maior medo de todos. Os especialistas dizem ser um passo necessário no processo do luto. Joona lera que assim que uma identificação é feita há certo tipo de libertação. Não é mais possível sustentar fantasias de que a pessoa ainda vive. Esses tipos de fantasias e esperanças levam apenas a frustração e vazio." (Pág. 65)

Sobre os autores:

Lars Kepler é o pseudônimo de Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, um casal sueco que escreve em conjunto. O seu estilo de livros é o romance policial.

Livros publicados no Brasil:

O pesadelo

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